quarta-feira, 31 de agosto de 2011

COMENTÁRIO DO DIA

A imprensa atrapalha?

Flagrados em irregularidades, investigados pela polícia ou denunciados pelo Ministério Público, políticos adotam postura de vítima e atacam os meios de comunicação.  Mais recentemente, técnicos e jogadores de futebol, frequentemente envolvidos em episódios contrários aos valores do esporte - como bebedeira madrugada adentro - também adotaram o script.
Por conveniente, esquivam-se até quando questionados por condutas anti-esportivas dentro das quatro linhas. No último fim de semana, por exemplo, um jogador flagrado pelas câmeras acertando uma cotovelada maldosa no rosto do adversário sentiu-se ofendido e no direito de se revoltar com o repórter que cumpria seu trabalho questionando a razão da violência.
Repórter é mesmo um ser insistente e curioso.
A deputada federal Jacqueline Roriz foi poupada da perda de mandato por seus pares na Câmara. Por 265 votos contra 166, com 20 abstenções, foi absolvida da acusação de corrupção.
Votação secreta, mas com entusiasmo explícito. Líderes do governo que luta para se livrar de corruptos aboletados nos altos escalões da máquina federal não se furtaram a comemorar o resultado.
Uma gravação divulgada em março passado pela imprensa, e datada de 2006, desencadeou o processo. Nela Jacqueline Roriz aparecia recebendo um pacote de notas com R$ 50 mil de um operador do “Mensalão do DEM”, esquema de propinas montado no Distrito Federal e ainda sob investigação.
Ontem, no plenário da Câmara, a deputada defendeu-se: “Lamentavelmente, vivemos um período em que parcela da mídia devora a honra de qualquer pessoa”. Referia-se, evidentemente, à divulgação, pelos meios de comunicação, da referida gravação.
Cabem as perguntas: o vídeo é falso? O pacote não era de dinheiro? Era de dinheiro, mas correspondia a pagamento por serviços regularmente contratados e comprovados por notas fiscais tempestivamente emitidas?
Porque se o vídeo não é falso, o pacote é de dinheiro e não houve serviço regular, com nota fiscal, a imprensa não tem culpa alguma.
Ressalte-se, porém, que a base da defesa, na verdade, foi de outra natureza. Arguiu o advogado - convencendo a maioria dos deputados, mas sem que isso tenha representado de fato árduo esforço - que o episódio ocorreu antes do mandato, e por isso a deputada estaria a salvo de uma cassação.
Dedução plausível: no Congresso, vida pregressa não é levada em conta - o Legislativo acolhe qualquer um.
Jacqueline Roriz ainda responderá a processo no Supremo Tribunal Federal, eis que denunciada pelo procurador-geral da República. Terá, portanto, a oportunidade de provar que é mesmo inocente, desmentindo a nossa dedução – o que seria motivo até de esperança.
 Mas, a julgar pelo que disse ontem, neste momento deve estar se perguntando qual o grau de influência que o trabalho de repórteres – esses seres sempre inconvenientes - pode exercer sobre os ministros do Supremo, e seu juízo. Ou seja, a imprensa pode voltar a “atrapalhar”? 

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