quinta-feira, 7 de abril de 2011

Guido Mantega, um trainee criativo?

   

Certa vez ouvi de um amigo ligado ao mercado financeiro comentário irônico sobre Guido Mantega que desde então me vem à mente sempre que o ministro convoca uma coletiva para anunciar alguma medida. Disse esse amigo que Guido Mantega é visto, em certos círculos financeiros, como um estagiário em pleno aprendizado.
    Qualquer um é capaz de lembrar as vezes em que, no governo passado, o “nosso” ministro da Fazenda provocou um desarranjo tal no mercado financeiro com suas declarações abruptas e ideias desconexas que foi preciso o presidente do Banco Central à época – tutor de fato da Economia – convocar novamente a imprensa para corrigir o que havia sido dito e tranquilizar o mercado.
    Guido Mantega é, sem dúvida, um homem de bem. De certa forma, lembra personagens hollywoodianos repletos de boa-fé e marcados pela inocência. O ministro tem um “quê” de Forrest Gump ou de Chance, o memorável jardineiro interpretado por Peter Sellers em “Muito além do jardim”. Convenhamos, a ideologia é, em parte, um reflexo da inocência.
    Pois é esse homem de boa-fé e inocência – para ficar apenas nesses adjetivos - que está à frente do ministério mais importante da sétima economia do mundo. E, ao que parece, hoje, livre do antigo tutor Henrique Meirelles, decidido a promover uma clara mudança no combate à inflação.
    Como se sabe, ainda que o discurso seja de total intransigência, o governo agora busca objetivos mais frouxos. Em linhas gerais, essa nova postura implica uma política monetária menos vigorosa, visando uma meta mais distante para a queda da inflação (2012).
Está centrada na crença de que será possível evitar uma espiral de indexação de preços ainda que a demanda continue aquecida – e ainda que não haja aumentos compatíveis de produtividade e da oferta de produtos e serviços.
    Curiosa mudança, pois a continuidade da política econômica por vários governos garantiu estabilidade ao país, crescimento sustentável - apesar das crises internacionais -, aumento da renda e o consequente ingresso de milhões de brasileiros no efetivo mercado de consumo.
Foi graças também a essa política, iniciada no governo de Itamar Franco, com o Plano Real, que Lula conseguiu consolidar seu governo, atingir altos índices de popularidade e se reeleger (teve, é preciso lembrar, o “mérito” de ser absolutamente incoerente após tomar posse, dando sequência àquilo que criticava quando na oposição). A própria eleição de Dilma Rousseff é, em grande parte, resultado dessa continuidade.
A pergunta então que nos cabe fazer é se vale a pena mudar uma política que tem dado certo há mais de uma década. Se devemos assistir, impávidos, a (novos) experimentos heterodoxos, agora sob a batuta de Guido Mantega – ironicamente, um dos mais longevos ministros da Fazenda, justamente porque beneficiário indireto de anos de estabilidade econômica.
Por trás desse desnecessário anseio de mudança, suspeito, esteja a mania latino-americana – da qual o Brasil não se livra - de dar voz à ideologia em detrimento da realidade dos fatos.
A propósito, dizem que já há um embate econômico entre o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e o ministro da Fazenda. Ao que tudo indica, a racionalidade está perdendo a batalha para a ideologia, em nome de um pseudo-desenvolvimentismo.
 
Por Nilson Mello

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