domingo, 24 de agosto de 2014

Anote


 
E o mea culpa de Mantega?
 

Mudança de rumo tardia

 
            O artigo publicado nesta última sexta-feira (ver texto mais abaixo) aponta alguns dos descompassos da gestão econômica no governo Dilma Rousseff. Utilizando dados do próprio governo e do Banco Mundial, denuncia a falácia, que vem sendo repetida sem constrangimento pela equipe econômica, de que a inflação fugiu da meta e persiste em patamares elevados porque esse era o preço a se pagar para que o país não sofresse os piores efeitos da crise internacional.

Os estímulos ao crédito e a redução forçada da taxa básica de juros – de forma “voluntariosaj”, ou seja, sem que houvesse um ambiente fiscal que garantisse a sustentabilidade dessa medida, sem risco de pressão sobre os preços – seriam, assim, de acordo com a falácia, indispensáveis para que o país continuasse a crescer.

            Os dados comparativos apresentados no artigo, contudo, mostram que o Brasil cresceu menos do que os principais emergentes e do que a média mundial, e quase sempre com inflação maior do que a maioria dos países em condições semelhantes. O que significa que a política anticíclica urdida pela equipe econômica de Dilma Rousseff, caracterizada pela expansão do crédito e por impulsos monetários e fiscais, pode ter sido eficiente para aquecer o consumo (e durante algum tempo), mas não gerou desenvolvimento sustentável.  Um experimentalismo econômico inconsequente.

            O artigo de sexta traz um alerta sobre o descontrole dos gastos públicos, a perda dos superávits primários e a deterioração da política fiscal. Neste particular, há outra falácia, não explicitada no texto, a ser desmascarada. Segundo ela, os gastos públicos precisam ser elevados para que o governo possa manter os programas sociais e de distribuição de renda, como o Bolsa Família – uma mentira que empurra para o “paredão”, tolhendo a crítica, todos aqueles que pedem melhor gestão pública.

            Na verdade, não são os programas sociais que comprometem a política fiscal, mas sim os aumentos excessivos de despesas correntes, de estímulos setoriais inconsistentes, na contramão da busca da eficiência, além da falta de rigor técnico e de transparência (com maquiagens contábeis). Tanto é assim que os principais candidatos de oposição contemplam em seus programas a manutenção e até o aperfeiçoamento dos programas sociais, ao mesmo tempo em que apontam os descaminhos grosseiros na área fiscal.

            Reproduzo aqui a pergunta de um leitor, perdido em meio à esquizofrenia da atual política: “juros altos não são bons para a economia, para segurar os preços?” Na verdade, juro alto é, em regra, ruim, porque encarece os recursos financeiros dos quais a economia precisa para produzir. O setor produtivo precisa de dinheiro barato. Mas, num ambiente de expansão fiscal e impulsos ao crédito, puxar os juros (por meio de uma política monetária restritiva) é a forma de se evitar o descontrole geral de preços, algo ainda mais deletério para a economia.

O que pensa então hoje o ministro da Economia, Guido Mantega, sobre a questão: “Será inevitável um aperto das contas públicas para que os juros possam cair. Importantes correções de rumo serão inevitáveis” (Valor Econômico, quinta-feira 21).  Como lembra o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga (Veja deste fim de semana), não havia base para a redução dos juros.

É bom saber que o ministro, embora tardiamente, se rendeu às evidências. Há se lamentar, contudo, o fato de não ter assumido de forma clara a culpa por uma política macroeconômica que combinou desequilíbrio fiscal, juro alto e (ainda assim) muita inflação, culminando com um baixíssimo crescimento, e que obrigará o próximo governo (seja qual for) a medidas duras para restabelecer o equilíbrio e a credibilidade.

Por Nilson Mello

Em tempo

O feudalismo na campanha eleitoral. E não é que a Gata Borralheira impôs a sua vontade e se tornou a Senhora do Castelo...

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Artigo


O (mau) humor da economia na era Dilma

 

            A alegação de que o Brasil precisou afrouxar o controle da inflação, deixando os índices fugirem do centro da meta para que o país não fosse contaminado pela crise, em meio a um ambiente externo adverso, não resiste a uma análise honesta. Não obstante, a desculpa vem sendo repetida com despudorada regularidade por economistas e analistas próximos ao PT e ao Planalto, sobretudo agora que a campanha eleitoral – amplificada pelo horário gratuito na TV e no rádio – pode colocar em evidência o fraco desempenho da gestão Dilma Rousseff.

Num mar de indicadores preocupantes, há até uma boa notícia, mas ela não deve alimentar ilusões. Se a inflação recentemente tem cedido, praticamente sem alta dos preços no último mês (em julho, 0,01%), o “feito” não pode ser atribuído à ação daqueles que respondem pela condução econômica, e tampouco pode ser visto como vitória perene. Ao contrário, é fruto do fracasso do modelo macroeconômico que engendraram (entusiasticamente batizado de “nova matriz”), que levou o país à beira de uma recessão.

O ritmo de alta de preços arrefeceu porque o endividamento esgotou a capacidade de consumo, mola propulsora da “matriz”. Mas o alívio é provisório porque as expectativas continuam a alimentar inflação futura, sobretudo porque os preços administrados – energia, transportes e combustível – foram represados e, mais cedo ou mais tarde, certamente depois das eleições, terão que ser liberados. Eis porque a FGV projeta inflação de 7,2% nos próximos 12 meses, acima, portanto, do teto da meta (de 6,5%), que deve ser o índice ao final deste ano. O desequilíbrio permanece.
 

Países emergentes, em condições similares à do Brasil, têm apresentado melhores indicadores de crescimento – e com índices de inflação em geral mais baixos, salvo os casos de Índia e África do Sul. O ambiente externo, por óbvio, é idêntico ao enfrentado pelo Brasil. Adotaram, porém, uma política econômica centrada na sustentabilidade e no equilíbrio, o que pressupõe um mínimo de rigor fiscal, ou seja, adequada gestão dos gastos públicos. Não fizeram arranjos experimentalistas, como a nossa “nova matriz macroeconômica”.

De acordo com o Banco Mundial, os países emergentes deverão crescer em média 4,8% em 2014 e 5,4% em 2015 (ver tabela abaixo). A média de crescimento do mundo – que considera os países desenvolvidos e por isso com taxa de crescimento inferior, e os países menos desenvolvidos e por isso com potencial de avanço igualmente menor – deve ser 2,8%. A projeção de crescimento para o Brasil em 2015 era de 1,50%, inferior à média mundial, mas já foi revista para 1,20%, de acordo com o último Boletim Focus, do Banco Central. Em 2014, o PIB brasileiro deverá crescer 0,81%, com retração no setor industrial (-1,53%). A média de crescimento do PIB no atual governo é de 2%, contra 4% no governo Lula – marcado por uma continuidade na política econômica, imune à “criatividade econômica” - e  2,3% do governo FHC. A média de Dilma só está acima do período 1990-1994 (1,24%)

 Fonte: Banco Mundial

Desde sua posse em 2011, o atual governo entendeu que deveria se ocupar do crescimento, e que para tanto deveria promover um forte afrouxamento da política monetária (redução da taxa básica de juros) e, ao mesmo tempo, manter a expansão do crédito, de forma a anular ou atenuar os efeitos da crise global iniciada em 2008/2009. O aumento do consumo, decorrente desses estímulos, seria a locomotiva do crescimento, puxando o setor produtivo. Paralelamente, seguiu ampliando os gastos públicos.

O resultado da alquimia explosiva foi, a partir de então, o aumento persistente dos índices de preços, resultado de demanda maior sem a contrapartida na elevação de oferta de produtos e serviços.  As pressões se mantiveram até que, em abril do ano passado, na iminência de um novo descontrole inflacionário, o Banco Central deu início a um ciclo de retomada da taxa básica de juros. De 7,25% a taxa passou para 11%, patamar atual, sem espaço para redução diante de uma política fiscal expansionista (gastos públicos) e do reiterado estímulo ao crédito.

Esta semana, o governo baixou novo pacote neste sentido, num sinal contraditório de sua política econômica: de um lado, mantém os juros elevados, de outro, reduz o compulsório dos bancos e abre novas linhas de financiamento. De qualquer forma, o aumento do crédito surtirá pouco efeito, tendo em vista um endividamento alto, com sinais de inadimplência. O governo também não reduziu despesas – o que era previsível num ano eleitoral – comprometendo ainda mais um cenário que já é de incertezas.

O superávit fiscal do ano (a economia para o pagamento de juros da dívida), cuja meta era de 1,9%, deve ficar em 1%. Ressalte-se que essa meta era inferior a todas as estabelecidas nos últimos 14 anos. A dívida pública subiu de 58% para 59% e a líquida, de 34,6% para 34,9% no ano. Com um quadro tão degradado nas contas públicas e com a manutenção da expansão do crédito, a política monetária precisa necessariamente ser mais austera.  Economia com juro alto é ruim, mas com inflação descontrolada é pior ainda. Não é por outra razão que já se projeta uma taxa Selic 12% em 2015, a maior desde agosto de 2011.

            Numa economia já ineficiente em razão de seus altos custos de produção, representados por uma infraestrutura precária (para não dizer obsoleta), com portos, aeroportos, rodovias e ferrovias no limite de sua capacidade, uma pesada tributação, que funciona como lastro para o setor produtivo e um elevado grau de burocracia, que subtrai o que ainda pode restar de agilidade nas empresas, uma forte expansão de demanda, sem a contrapartida de um gradual e consistente aumento da oferta, só pode levar a um impasse macroeconômico, cujo maior sintoma é a pressão sobre os preços.

O que todos já perceberam – menos o governo – é que o problema do crescimento brasileiro não está relacionado à demanda, mas, sim à oferta. O maior gargalo está na capacidade de produção.  Seria preciso aumentar os investimentos. A questão é que, com tantas incertezas, a taxa de investimento também despencou, como revelam dados recentes. O maior desafio do próximo governo (ainda que seja o mesmo, reeleito) será, portanto, o resgate da credibilidade na área econômica. Uma missão hercúlea, haja vista o desmonte dos últimos quatro anos.

 Por Nilson Mello

Em tempo

Ainda a Dilma - A presidente da República afirmou ontem que é do interesse da União (ou seja, do Estado, não do governo) defender a Petrobras, ao justificar a pressão de alguns de seus ministros e do Advogado Geral da União para que o TCU não bloqueasse os bens da presidente da empresa. A presidente acha que a oposição está atacando a Petrobrás quando levanta denúncias contra a estatal e a os possíveis desvios de sua direção. Mas isso não é defender a estatal dos malfeitos? A oposição está atacando a má gestão, ou a gestão fraudulenta, não a instituição. Aliás, essa discussão nem existiria se o Estado não se metesse a empresário. O Estado precisa produzir petróleo e vender gasolina? Ou uma estatal petrolífera (aliás, como todas as demais) só interessa aos políticos, que a utilizam para fins escusos?

Ensaio sobre o Ebola - O confinamento de infectados na favela West Point, em Monróvia, capital da Libéria, cercados e contidos sob a mira dos fuzis de centenas de soldados do Exército, é um cruel retrato do despreparo das nações africanas para lidar com a assustadora epidemia que nos remete à ficção de José Saramago, com o seu Ensaio sobre a cegueira.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Comentário do Dia


Gata Borralheira?
 
Uma campanha familiar - Esta é uma eleição em família, a julgar pelo primeiro dia de propaganda na TV e no rádio, ontem. Descobre-se que Lula é pai de Eduardo e Aécio, irmão. No caso de Aécio, o parentesco vem desde criancinha (incrível, hein!), como ele fez questão de salientar em sua primeira aparição, por conta do protagonismo político de seus avós, respectivamente Tancredo Neves e Miguel Arraes, velhos caciques republicanos. E que o eleitor não tente encontrar convergências ideológicas ou programáticas entre a raposa mineira e o líder pernambucano.  Elas simplesmente não existem. Já Lula não detalhou o caso de adoção. Mas se explicar também nunca foi o seu forte. Pelo visto, Marina será a ovelha negra desta campanha, sem prova de filiação e sem comprovação de DNA no ninho do PSB, onde, adotada, não lhe faltam desafetos entre os próprios "irmãos". Gata Borralheira em um conto que não é de fadas. (NM)

 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Comentário do Dia


A posição do Agronegócio - A repentina entrada de Marina Silva na disputa eleitoral já acendou uma luz de alerta no agronegócio brasileiro, setor que teme a radicalização das questões ambientais caso a ex-senadora do Acre seja eleita. A CNA - Confederação Nacional da Agricultura, emitiu hoje a seguinte nota:

Comunicado CNA
1. Não é papel da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) assumir posição em relação aos presidenciáveis no processo eleitoral. O papel da CNA é transmitir, aos que postulam a Presidência da República, os problemas e necessidades do setor agropecuário e, aos produtores, uma análise das ideias e compromissos dos candidatos em relação a estes problemas e necessidades.

2. A CNA vai acompanhar a campanha, os pronunciamentos dos candidatos, seus compromissos, e interpretá-los segundo a visão do agronegócio, setor fundamental para manter o saldo positivo da balança comercial, representando 44,4% das exportações, cerca de 23% do Produto Interno Bruto e um terço dos empregos formais do país.
3. Eventuais mudanças no quadro eleitoral em nada alteram as posições e demandas expressas no documento “O que esperamos do próximo presidente”, que foi entregue aos três candidatos mais bem colocados nas pesquisas, durante o Encontro de Presidenciáveis promovido pela CNA no último dia 6 de agosto.

4. Este encontro foi considerado plenamente satisfatório, por ter mostrado uma grande convergência de opiniões sobre a importância do agronegócio para o Brasil.
5. Em princípio, todos os candidatos merecem consideração e o que o setor deseja é que todos assumam os compromissos necessários para que o agro continue se desenvolvendo e avançando.

6. Se, em algum momento, algum candidato exprimir pontos de vista ou prometer ações prejudiciais aos produtores rurais e ao desenvolvimento do agronegócio, alertaremos nossos associados, as federações, os sindicatos e o conjunto dos produtores brasileiros.
7. O que desejamos é manter com todos os presidenciáveis, e com o eventual vencedor das eleições, um clima de diálogo e de entendimento, para o bem do país.

Brasília, 19 de agosto de 2014
Assessoria de Comunicação da CNA

Bonner X Dilma Rousseff - Entrevistador pode e deve ser incisivo, mas não pode e não deve ser deselegante. Patrícia Poeta e W. Bonner não se saíram bem ontem na entrevista de Dilma Rousseff. Seria possível fazer todos os questionamentos que fizeram - e até outros mais relevantes - num tom educado, de respeito não apenas à candidata, mas à presidente da República. Dilma Rousseff estava sendo entrevistada como candidata, mas a sua condição de presidente é indissociável. O resultado é que Dilma Rousseff, sempre claudicante e obscura quando tenta verbalizar um raciocínio minimamente lógico (algo que lhe exige um grande esforço), acabou se saindo razoavelmente bem dentro do contexto e para os seus (baixos) padrões de comunicação. Não será surpresa se, com as interrupções do Bonner, ela tiver conquistado a empatia de boa parte do público.

Desconstruindo Marina – Definida a candidatura de Marina Silva pelo PSB, ainda que não oficialmente, resta agora saber quanto tempo seus oponentes aguardarão para deixar de lado a trégua – natural em função da comoção em torno da morte de Eduardo Campos – e passar ao ataque. Porque não restam dúvidas que, em dado momento, Marina terá que ser, necessariamente, um alvo de Aécio Neves. É com a ex-senadora que o tucano disputa, indicam as primeiras sondagens, o “direito” de ir ao segundo turno, num embate acirrado. Dependendo do crescimento da ex-senadora nas próximas pesquisas, será também alvo certo do PT. Os coordenadores da campanha de Dilma devem deixar o “trabalho sujo” inicial para os tucanos, cientes de que atacar uma política que traz a aura da renovação pode ser um tiro pela culatra. A tarefa exige verdadeira sintonia fina do marketing eleitoral. Mas não é impossível, se considerarmos o grande paradoxo que Marina Silva personifica. Senão, vejamos: aparentemente, ela é até aqui a candidata preferida dos jovens de nível educacional mais elevado, mais críticos e, portanto, liberais, insatisfeitos com as velhas práticas políticas, ansiosos por renovação e por lideranças com as quais se sintam identificados – anseios expressos nas jornadas de junho/julho de 2013. Em tese, encarna essa renovação, como já ficara demonstrado lá atrás, nas eleições de 2010. Mas Marina é liberal? Empunha as bandeiras do jovem eleitor? Marina, como evangélica, é a favor do aborto, da liberação da maconha, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da fecundação em laboratório etc? Afinal, Marina é a renovação ou é o conservadorismo? Eis aí o paradoxo a ser explorado pelos marqueteiros de seus concorrentes já nos próximos dias.

Inflação – Há quatro anos a inflação segue indisciplinada fora da meta de 4,5%.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Comentários do Dia




O fator Marina Silva

Primeiras pesquisas – Para quem achava que a morte de Eduardo Campos teria impacto limitado no quadro eleitoral (conforme artigos de alguns analistas na semana passada), as primeiras pesquisas feitas logo após o desastre aéreo de Santos mostram o quanto as mudanças foram significativas. De acordo com o Datafolha, Marina Silva – agora virtual candidata do PSB em substituição a Campos – venceria Dilma Rousseff, num eventual segundo turno, com 47% dos votos válidos contra 43% da presidente. Na hipótese de um segundo turno entre Aécio e Dilma Rousseff, a candidata à reeleição venceria o tucano: 47% contra 39%. Não houve simulação ente Aécio e Marina no segundo turno, mas, a julgar pelo retrato atual, é razoável supor que, se a decisão fosse hoje,  o Tucano perderia. O ingresso de Marina na disputa comprova que o seu “capital político-eleitoral”, traduzido nos votos obtidos em 2010 (quase 20 milhões) ou intenção de votos, superava o do ex-governador de Pernambuco. Campos  vinha patinando com cerca de 9% nas pesquisas, depois de já ter chegado a 16%, no início do ano.  Mas ainda é difícil saber se a rápida reação do eleitor é apenas reflexo da comoção que tomou conta do país após a tragédia da semana passada, favorecendo o apoio ao PSB e à Marina, ou se realmente é uma tendência que se consolidará a partir desta semana, quando começa o horário de propaganda no rádio e na televisão. Também é cedo para avaliar com exatidão se essa intenção de votos em Marina resulta da migração da intenção de votos em outros candidatos para ela ou se já representa um despertar do eleitorado que permanecia indiferente ou desapontado com as perspectivas eleitorais, mais inclinado, assim, a votar nulo e branco e mesmo se abster, num sinal de protesto. Não foram poucos os cientistas políticos no início do ano que avaliavam Marina como uma “candidata de nicho” e com dificuldades para ampliar o seu eleitorado. Isso será testado agora. O que parece certo desde já é que Dilma e Aécio perderam com a entrada de Marina na corrida (o que explica o esforço do PT e do ex-presidente Lula em pessoa na semana passada em trazer de volta o PSB à base aliada), e terão trabalho redobrado. Mas Aécio, evidentemente, perdeu mais, porque, nas primeiras simulações, já aparece em terceiro, com risco de não chegar ao segundo turno. Na melhor das hipóteses, passou a dividir com a candidata do PSB as atenções daqueles eleitores que sabem que este governo, definitivamente, não funciona.

Crescimento. Que crescimento? – O mercado financeiro reviu a sua previsão para o PIB de 2014: de 0,81% para 0,79%. A previsão de queda do setor industrial – que tem impacto direto no baixo desempenho do PIB – também foi revista: de -1,53% para -1,76%. Com um ritmo econômico tão lento, querendo parar, a projeção da inflação para este ano melhorou: ao invés de romper o teto máximo da meta (de 6,50%), agora a previsão é de 6,25%. O governo, com sua “nova matriz macroeconômica”, conseguiu promover o cenário que dizia tentar evitar ao estimular o consumo de forma irresponsável: um baixo crescimento, hoje, quase beirando a recessão. E com uma inflação renitente, ainda sob os efeitos dos impulsos fiscais e de crédito, e a despeito da fortíssima puxada da política monetária no último ano e meio, que segue “enxugando gelo” em meio a uma "condução" econômica esquizofrênica.
Por Nilson Mello

 

 


sábado, 16 de agosto de 2014

Comentário do Dia

Especulações de campanha - Dizem que os "conservadores" querem a candidatura de Marina porque sabem que ela tira voto de Dilma. O que não deixa de ser verdade. Já o "lulopetismo" quer a polarização Dilma-Aécio porque sabe que a candidata à reeleição terá mais chances com o embate direto com o tucano. Aécio, por sua vez, terá grandes dificuldades com ou sem a ex-senadora no páreo. Por outro lado, pela ótica de Marina, que razão haveria para desistir da "via política alternativa" que ajudou a criar e voltar à base aliada que tanto deplorou? Para o PSB, qual seria a justificativa para abandonar essa terceira via, tendo um nome forte à Presidência? E, para os eleitores em geral, que desvantagem poderia haver numa disputa com três candidatos fortes? Isso não enriquece o debate e fortalece a democracia? Só há, portanto, vantagens na candidatura de Marina. Menos, é claro, para o PT.

Por Nilson Mello