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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Geopolítica

                                                            Putin, o enxadrista



Nilson Mello

Putin joga xadrez diplomático. É hábil e estrategista. Fabricou esta crise com a Ucrânia para consolidar seu prestígio e para tentar restaurar à Rússia o papel de potência Global, ou ao menos não relegá-la de vez a um segundo plano. A possibilidade de esse movimento de fato terminar em guerra (algo que não interessa a ninguém) sempre foi remota, mas ainda assim a jogada foi arriscadíssima - justamente porque o conflito armado não interessa a nenhuma das partes, muito menos à Rússia.

A motivação do conflito seria o fato de a aliança ocidental (OTAN) estar nas fronteiras russas, hoje acomodando ex-estados satélites soviéticos, o que, reitera Putin, com muita eloquência e inteligência, é uma “projeção de poder”, uma ameaça permanente. Seria quase como se a Venezuela, Cuba ou o México ingressassem numa aliança militar liderada pela Rússia e permitissem, em seu território, mísseis apontados para os Estados Unidos.

Ocorre que esses ex-satélites aderiram à OTAN justamente porque se sentiam ameaçados por Moscou. Outro dado relevante é que os Estados Unidos não abocanharam, ao menos recentemente, territórios dos vizinhos. Recentemente, pois, no Século XIX, tomaram do México uma vasta área que hoje engloba Califórnia, Arizona, Nova México, Montana, Colorado e parte de outros estados, sem contar o que foi conquistado da França, desde o Sul do Golfo do México até o Norte do Missouri.

Muito bem, foi a possibilidade de invasão russa – e não o contrário - que fez o governo de Kiev procurar o mesmo caminho que seus vizinhos, ensaiando ingressar na aliança do Atlântico Norte, o que serviu de estopim para a atual crise, lembrando que outro dia mesmo (2014) a Ucrânia teve parte de seu território (na Crimeia) (re) tomada pela Rússia. Na Crimeia está uma antiga base naval soviética. O território faz parte de uma grande região cedida por Moscou a Kiev em meio à estruturação da URSS promovida pelos primeiros líderes soviéticos. Há também na Ucrânia uma considerável parcela da população de origem russa, além de atuantes movimentos separatistas pró-Rússia.

Nenhum desses aspectos históricos e políticos, contudo, é argumento suficiente para impedir o governo da Ucrânia, democraticamente escolhido pela maioria de sua população, de escolher qual aliança integrar. Putin está ciente disso, mas, se aceitasse calado a entrada da Ucrânia (a mais importante das antigas Repúblicas soviéticas) na OTAN, seria como se a Rússia renunciasse de vez a um papel geopolítico de relevância. Como enxadrista diplomático, preferiu o risco.

No cálculo político, até para o seu “público interno”, ficar inerte traria um prejuízo maior, para si e para o país que governa. Agiu ciente de que não precisaria ir às vias de fato. E por essa razão, não deve haver qualquer surpresa em relação ao seu sutil recuo desta terça-feira, que distendeu tensões e aliviou mercados.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Artigo



O fetiche da barbárie


      Os sunitas formam o ramo majoritário e, historicamente, o menos radical do Islã. Ao menos assim eram reconhecidos até o surgimento do Isil, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, na sigla em inglês (ou Isis, Estado Islâmico do Iraque e da Síria), hoje apenas Estado Islâmico (EI).
Calcula-se que 84% dos muçulmanos pertençam a essa corrente, de posição mais neutra em comparação aos xiitas, kharijitas e outras denominações mais recentes.
O radicalismo político e o fundamentalismo religioso eram tradicionalmente traços associados aos xiitas, não aos sunitas. Basta lembrar que o termo “xiita” serviu por um bom tempo para designar, no Brasil, parlamentares e políticos de posição mais radical, geralmente de esquerda.
O apelido em tom irônico surgiu na esteira da revolução iraniana de 1979, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini e que levou à deposição do xá Reza Pahlevi.  Khomeini pôs fim à monarquia artificial, totalitária e pró-ocidente de Pahlavi e inaugurou um Estado islâmico de caráter fundamentalista.
No mundo contemporâneo, o Irã criado por Khomeini, morto em 1989, é certamente a mais nítida expressão de uma teocracia, ainda que hoje a revolução islâmica iraniana já não tenha mais a intensidade dos seus primeiros anos.
Pouco tempo depois, na arrastada e sangrenta guerra entre Iraque e Irã (1980-1988), sunitas e xiitas travaram um confronto formal que resultou em 1,5 milhão de mortos. Com as economias dos dois países devastadas pela guerra, não houve vencedor formal – apenas perdedores.
O antagonismo de Teerã ao ocidente e, em especial, aos Estados Unidos, fez com que o Iraque do então ditador Saddam Hussein - e de maioria sunita - contasse com o total apoio americano. Especula-se que o estímulo para que Bagdá rompesse o antigo acordo de fronteira com o país vizinho nos territórios ocupados pelas minorias curdas (estopim do conflito) tenha sido, na verdade, urdido em Washington, interessado na desestabilização do regime islâmico.
Em 1990 e em 2001, nas guerras do Golfo e do Iraque, os alvos da política externa americana e de seus “planos estratégicos” passaram a ser Saddam Hussein e o próprio Iraque. A ocupação que se seguiu à guerra de 2001-2003 não teve êxito - como fica claro agora - em estabelecer um sistema político estável no país, com equilíbrio de forças.
Alijados do poder, embora majoritários, sunitas forjaram o seu Estado Islâmico radical. A desestruturação da ditadura síria de Bashar al-Assad  e a fraqueza institucional da presuntiva democracia iraquiana foram os terrenos férteis para a sua propagação.
O Irã de hoje está prestes a se unir ao Ocidente e a países árabes na coalizão militar destinada a conter o avanço do EI – coalização que conta também com curdos e turcos. O regime de inspiração xiita volta a combater forças sunitas, mas agora tendo americanos e iraquianos como aliados.
O sumário histórico pontua os acontecimentos, mas não explica o principal: como um grupo que adota um grau de extremismo sem precedentes, de barbárie ímpar, pode atrair para suas fileiras uma legião de voluntários procedentes de nações, culturas e até religiões tão distintas? Qual a explicação para o “fetiche” da violência ser tão poderoso?
Estimativas das Nações Unidas indicam que os cerca de 30 mil combatentes do EI sejam procedentes de mais de 80 países, sendo que 2 mil deles são ocidentais - americanos, franceses, ingleses, dinamarqueses e alemães, entre outras nacionalidades.Entre os combatentes, há mulheres ocidentais, segundo notícias divulgadas esta semana.
Tão chocante quanto ver dezenas - às vezes centenas - de homens, prisioneiros do EI, dirigirem-se de mãos atadas e em longas fileiras, de forma resignada, para a execução sumária, ou reféns ajoelhando-se com serenidade, para serem decapitados a faca fria, é saber que milhares de jovens ao redor do mundo são seduzidos por uma fórmula estarrecedora e ao mesmo tempo simples: o terror na sua forma mais brutal e gratuita. Não são ideias ou propostas que sobressaem no EI, mas a violência em estado bruto.
A conclusão é que, para acabar com as guerras e a violência, seria preciso reinventar o ser humano.

Por Nilson Mello 



Desempenho econômico – O mundo não enfrenta uma crise econômica generalizada, ao contrário do que o governo afirma, para tentar justificar o baixíssimo desempenho da economia brasileira, cujo crescimento será próximo de zero em 2014.
Este é o principal ponto do manifesto assinado por 164 economistas, de diferentes escolas e correntes -  inclusive heterodoxos - e divulgado esta semana, com críticas à gestão da economia no governo Dilma Rousseff.
Entre os países vizinhos, a Colômbia deverá crescer 4,8% este ano com inflação de 2,8%; o Peru, 3,6%, com 3,2% de inflação; o México, 2,4% de avanço de PIB, com 3,9% de aumento de custo de vida. A inflação no Brasil deverá estourar o teto da meta, de 6,5%, sem garantias de que haverá crescimento.
Os dados comparativos jogam por terra a ideia - equivocada - que tem sido martelada pelo marketing oficial segunda a qual foi preciso deixar a inflação escapulir um pouco para não prejudicar a atividade econômica. Não se cresce com inflação.
No mundo, destaca o manifesto com base em dados da OCDE, só há quatro países a rigor em crise: Argentina, Itália e Islândia, além do Brasil. O documento faz um alerta: com crescimento baixo e inflação em alta, os índices de emprego no Brasil não tardarão a cair. Mais detalhes no link abaixo: